quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

[RESENHA] Toda Luz Que Não Podemos Ver - Anthony Doerr

   
   Toda Luz Que Não Podemos Ver me chamou a atenção pelo seu título enigmático e poético, sua capa com lindos tons de azul e o contexto em que a história se passa: a Segunda Guerra Mundial. Iniciei a leitura com enormes expectativas e elas não só foram atendidas, como superadas. 
   Eu sou muito interessada em fatos históricos e a Segunda Guerra Mundial sempre foi para mim um atrativo de aprendizado, pois foi algo tão brutal e tão assustadoramente recente. Livros como o de Anthony Doerr nos fazem entender de maneira dolorosa o verdadeiro peso da guerra e ansiar que o ser humano encontre uma maneira de viver em paz. 
" A guerra, pensa Etienne distante, é um bazar onde vidas humanas são trocadas como qualquer outra mercadoria (...)." 
   O livro conta a história de Marie-Laure e Werner. 
   Marie-Laure mora em Paris com seu pai, próximo ao Museu de História Natural, onde ele é chaveiro. Ela perdeu sua visão quando tinha seis anos, mas a forma como o escritor nos mostra o modo de enxergar o mundo através dela é incrivelmente arrebatador. Marie-Laure é inteligente, meiga e decidida e seu pai a ama demais. Ele se mostra dedicado e preocupado com sua independência, por isso constrói uma maquete do bairro onde eles moram, para que a menina possa memorizar os caminhos. Com doze anos, Marie-Laure vê seu mundo se virar de cabeça para baixo quando o avanço nazista atinge Paris e ela e seu pai são obrigados a fugir. Após uma longa e difícil viagem, dividida em extensas caminhadas e caronas de beira de estrada, ela e seu pai chegam a Saint-Malo, onde o tio-avô dela mora.
   Werner vive em um orfanato com sua irmã Jutta em uma região de minas, onde as cinzas são partículas sempre presentes. Seu pai morreu nas minas e ele não suporta o fato de que quando completar quinze anos, o seu destino e de todos os outros garotos será ir trabalhar nas mesmas também. Werner é apaixonado por rádios. Ele e sua irmã encontram um em meio ao lixo e após consertá-lo, o objeto passa a ser atração principal das crianças do orfanato. Werner não tem ambição pela guerra. Nem por dinheiro. Ele tem sede de conhecimento. Ele quer ir para Berlim e participar de grandes projetos com grandes cientistas e não é de se espantar com tamanha a felicidade que ele sente quando seu talento se espalha pela vizinhança a ponto de alcançar os ouvidos de um comandante, que após ver o talento de Werner quando o mesmo conserta um imponente rádio em sua mansão, o recomenda a uma famosa escola nazista.
   Algo importante para a história é um diamante chamado Mar de Chamas, que protagoniza diversas lendas carregadas de maldições e perdas. A joia fica sob a proteção do pai de Marie-Laure, que leva a mesma consigo para a cidade histórica costeira de Saint-Malo. Esse diamante se torna o objetivo central de um personagem muito presente no enredo: o sargento Von Rumpel. Ele avalia objetos de valor para o exército alemão, pois está entre os planos do Reich a construção de um enorme museu. O centro cultural do mundo. Von Rumpel se mostra uma pessoa paciente e fria, que não se importa com quanto tempo terá que esperar para conquistar seus objetivos, mas para sua surpresa, tempo não é algo que ele terá o direito de aproveitar por muito tempo.
   Eu tenho dificuldade em descrever a grandeza desse livro. Ele mostra como o lado mais bonito e o lado mais feio da humanidade se mostra em situações de crise. Todos os personagens de Doerr tem uma profundidade tão grande... Frederick, amigo de Werner, que não aceita as atrocidades cometidas na escola, que tem uma índole tão boa e que é amante de pássaros; Volkheimer, conhecido na escola de Werner como o Gigante e por seu temperamento violento, mas que é meigo com o garoto e se curva com os olhos semiabertos em uma poltrona próxima a lareira quando escuta música; Etienne, tio-avô de Marie-Laure, que depois da Primeira Guerra não sai de casa a mais de vinte anos, vendo o fantasma de seu irmão pelos cantos, que adora ler sobre os lugares que Darwin visitou e que se sente capaz de visitá-los apenas através da imaginação; Madame Manec, empregada de Etienne, que é tão intensa e voraz e tem a alma tão aventureira e sedenta de justiça como a de uma adolescente, que cuida de Marie-Laure como uma mãe; Jutta, que apesar de tão nova, compreende que tudo o que a Alemanha propagava não passava de maquiagem para encobrir toda a destruição que ela causou, destruição essa que atingiu seu povo mais do que qualquer outro.
"Abram os seus olhos e vejam o máximo que puderem antes que eles se fechem para sempre." 
  Duas personalidades são muito importantes na história: Júlio Verne, escritor de Vinte Mil Léguas Submarinas, livro presente em muitas cenas sob os dedos ágeis de Marie-Laure e Claude Debussy, compositor da linda canção "Clair de Lune", que é tão imensuravelmente importante para a história.           
   Antes de começar a leitura deste livro, eu estava com um pouco de medo de me decepcionar, porque depois de ler o magnífico A Menina Que Roubava Livros, de Marcus Zusak, não achei que o romance de Doerr conseguiria mexer em um nível tão profundo comigo quanto como a história da ladra de livros Liesel mexeu, mas quando terminei, não senti a necessidade de estabelecer qual livro era melhor, mas me senti grata por guardar para sempre a história de ambos os escritores comigo. Assim como Zusak, Doerr tem uma escrita tão linda, tão humana. E ele cria um desfecho tão intenso, doloroso e sincero, que foi como seu uma mão tomasse meu coração e o apertasse. 
"Você nunca pode deixar de acreditar. Essa é a coisa mais importante."  
   Toda Luz Que Não Podemos Ver é mais do que um relato de guerra. É uma história que traz a tona o que o ser humano tem de melhor: bondade. Doerr cria uma história que ficará para sempre guardada em minha alma, que é a luz invisível que habita em cada um de nós.   

Informações Técnicas      

Título: Toda Luz Que Não Podemos Ver
Escritor: Anthony Doerr
Editora: Intrínseca (2015)
Páginas: 526
Tipo de Capa: Brochura
Primeira Publicação: 2014
Classificação: ♥ (✮)


    

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